O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas

Fuente: Zenodo
Gespeichert in:
Bibliographische Detailangaben
1. Verfasser: mendes, anna heller moraes
Format: Recurso digital
Sprache:Portugiesisch
Veröffentlicht: Zenodo 2025
Schlagworte:
Online-Zugang:
Tags: Tag hinzufügen
Keine Tags, Fügen Sie den ersten Tag hinzu!
_version_ 1866901102957428736
author mendes, anna heller moraes
author_facet mendes, anna heller moraes
contents <p>O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas.<br>Este trabalho parte da articulação entre cinema, psicanálise e crítica social a partir do corpo de Alice – a do tal país que disseram que era maravilha.<br>Interessa-nos o corpo: o corpo de Alice na construção cinematográfica a partir de duas obras. A análise se constrói a partir do desenho animado da Disney (1951) e do filme Alice (1988), de Jan Švankmajer, ancorada em escuta psicanalítica e estética da linguagem cinematográfica. Ambos os filmes apontam para a violência sexual, na minha particular leitura. Para as mulheres, isso se impõe como normal e acontece prematuramente — se é que existe tempo certo para o corpo ser invadido. O desenho da Disney é, por inteiro, uma cena indigesta. A violência está disfarçada em humor e fantasia, e o público — nós — naturaliza, ri, segue e se diverte, ignorando o pedido de socorro. A denúncia está ali, mas não é ignorada. O autor foi muitas vezes posicionado no lugar da perversão. Mas, e se olharmos essa narrativa como sublimação de algo assistido ou vivido? E se Carol é Alice?<br>No filme tcheco de Švankmajer, a denúncia é mais crua. Alice aqui é um corpo abandonado, periférico, marginal, vive num casebre miserável e, já nas primeiras cenas, recebe um tapa na mão. É uma Alice infeliz, isolada, frágil. Não há final feliz. Voltar para casa não é acolhimento, a casa não é segura — voltar é seguir no ciclo violento. O lar é o lugar da repetição do trauma. O corpo de Alice, nesse contexto, está longe da fantasia: é um corpo ferido, esvaziado de desejo, mas habitado por desejo.<br>Nos interessa o corpo que cai. Já no início do texto original, Alice pensa: "Well!" thought Alice to herself. "After such a fall as this, I shall think nothing of tumbling down stairs!" — "Ora! pensou Alice consigo mesma. Depois de uma queda como esta, não vou achar nada demais cair das escadas!". Por que alguém se acostuma a cair das escadas? Isso não seria um sinal de alerta de um corpo violentado? A queda constante nos diz sobre repetição e trauma. A naturalização da queda como rotina é um indício da banalização da violência sobre esse corpo. E por que, afinal, ela para no telhado? O telhado como entre-lugar: nem dentro, nem fora; nem chão, nem céu. Um quase-fim. Corpo lançado entre mundos, suspenso no abismo.<br>Este trabalho incluirá ainda referências ao texto original de Lewis Carroll e sua tradução em português. Não há a Alice do livro, ou a do filme, ou a do desenho.<br>Há Alices, suas histórias. As referências se somam para narrar uma mesma dor: a da menina cujo corpo foi lançado à fantasia para esconder o que o mundo não quis ver.</p><p><strong>Eixo 7 — Corpo Subjetivo e Psicanálise</strong></p><p>In: Anais do VI Congresso Internacional Corpos em Movimento 2025. Revista Periphérica / CPAPEC, 2025.</p>
format Recurso digital
id zenodo_https___doi_org_10_5281_zenodo_18568180
institution Zenodo
language por
publishDate 2025
publisher Zenodo
record_format zenodo
spellingShingle O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas
mendes, anna heller moraes
Psicanálise
cinema
literatura
conto de fadas
Corpo Subjetivo e Psicanálise
Corpos em Movimento 2025
<p>O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas.<br>Este trabalho parte da articulação entre cinema, psicanálise e crítica social a partir do corpo de Alice – a do tal país que disseram que era maravilha.<br>Interessa-nos o corpo: o corpo de Alice na construção cinematográfica a partir de duas obras. A análise se constrói a partir do desenho animado da Disney (1951) e do filme Alice (1988), de Jan Švankmajer, ancorada em escuta psicanalítica e estética da linguagem cinematográfica. Ambos os filmes apontam para a violência sexual, na minha particular leitura. Para as mulheres, isso se impõe como normal e acontece prematuramente — se é que existe tempo certo para o corpo ser invadido. O desenho da Disney é, por inteiro, uma cena indigesta. A violência está disfarçada em humor e fantasia, e o público — nós — naturaliza, ri, segue e se diverte, ignorando o pedido de socorro. A denúncia está ali, mas não é ignorada. O autor foi muitas vezes posicionado no lugar da perversão. Mas, e se olharmos essa narrativa como sublimação de algo assistido ou vivido? E se Carol é Alice?<br>No filme tcheco de Švankmajer, a denúncia é mais crua. Alice aqui é um corpo abandonado, periférico, marginal, vive num casebre miserável e, já nas primeiras cenas, recebe um tapa na mão. É uma Alice infeliz, isolada, frágil. Não há final feliz. Voltar para casa não é acolhimento, a casa não é segura — voltar é seguir no ciclo violento. O lar é o lugar da repetição do trauma. O corpo de Alice, nesse contexto, está longe da fantasia: é um corpo ferido, esvaziado de desejo, mas habitado por desejo.<br>Nos interessa o corpo que cai. Já no início do texto original, Alice pensa: "Well!" thought Alice to herself. "After such a fall as this, I shall think nothing of tumbling down stairs!" — "Ora! pensou Alice consigo mesma. Depois de uma queda como esta, não vou achar nada demais cair das escadas!". Por que alguém se acostuma a cair das escadas? Isso não seria um sinal de alerta de um corpo violentado? A queda constante nos diz sobre repetição e trauma. A naturalização da queda como rotina é um indício da banalização da violência sobre esse corpo. E por que, afinal, ela para no telhado? O telhado como entre-lugar: nem dentro, nem fora; nem chão, nem céu. Um quase-fim. Corpo lançado entre mundos, suspenso no abismo.<br>Este trabalho incluirá ainda referências ao texto original de Lewis Carroll e sua tradução em português. Não há a Alice do livro, ou a do filme, ou a do desenho.<br>Há Alices, suas histórias. As referências se somam para narrar uma mesma dor: a da menina cujo corpo foi lançado à fantasia para esconder o que o mundo não quis ver.</p><p><strong>Eixo 7 — Corpo Subjetivo e Psicanálise</strong></p><p>In: Anais do VI Congresso Internacional Corpos em Movimento 2025. Revista Periphérica / CPAPEC, 2025.</p>
title O corpo de Alice, a do tal país que disseram que era das maravilhas
topic Psicanálise
cinema
literatura
conto de fadas
Corpo Subjetivo e Psicanálise
Corpos em Movimento 2025
url https://doi.org/10.5281/zenodo.18568180